sexta-feira, 16 de maio de 2014

O que estuda a estética (incompleto)


1. O que estuda a estética? – Na sua origem, o termo “estética” deriva do grego antigo, com o significado de sensação ou perceção. Foi recuperado pelos filósofos da mente do século XVIII para a) designar um tipo de experiência e/ou de conhecimento baseado nos sentidos e que não dependeria [diretamente] do pensamento racional. Posteriormente, a estética passou a estar associada à b) teoria da arte, aos valores artísticos e ao estudo de conceitos ou experiências acerca da beleza e conceitos relacionados.
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2. A universalidade da estética
A estética parece ser um tipo de experiência universal em dois sentidos: manifesta-se em todos os indivíduos e tende a haver algum elemento estético em quase todos os objectos produzidos pelas pessoas. Além disso, é frequente haver objectos que são produzidos apenas para serem objectos estéticos, como canções, poemas ou adornos pessoais. A preferência que manifestamos por objetos bonitos, ou com algum elemento estético, parece ser universal. As manifestações ou produções estéticas encontram-se em quase tudo o que fazemos e nos objetos de que nos rodeamos.
O que procuramos nesses elementos estéticos dos objetos? Prazer sensorial? Prazer espiritual? Expressão de sentimentos e estados de espírito? Simbolização de ideias e crenças? Relatar experiências? Representar a forma como vemos o mundo? Satisfazer um gosto instintivo por padrões, cores bonitas e formas elegantes? Transes e experiências religiosas?...
Alguns dos primeiros investigadores da experiência estética definiram-na como uma experiência de contacto direto com o objeto em que (i) o sujeito experimenta uma espécie de interesse desinteressado (não material) pelo objecto e em que (ii) os sentidos são libertados dos esquemas rígidos da razão para poderem brincar livremente com os dados que recebem do objecto (jogo livre dos sentidos).
A universalidade deste tipo de interesse e preferência é tal que os manifestamos relativamente a objetos que, à primeira vista, não teriam valor estético, como um parafuso. Verificamo-la facilmente em objetos como talheres e copos, mosaicos e canalizações, maçãs e bolachas, carros ou casas. O elemento estético acrescentado ao um objeto valoriza-o como objeto pessoal ou como produto comercial, associa-o a ideologias, a crenças, a uma identidade cultural ou à religião (ajudando a fixá-las e reproduzi-las). A preferência por objetos com elementos estéticos é tão importante que ter objetos com qualidade estética parece uma necessidade ou uma tendência da espécie humana.

3. O que é uma experiência estética? – O conceito de experiência estética abrange, portanto, duas grandes tradições, com abordagens diferentes:
(i) Uma tradição ligada ao estudo da mente e da perceção, que começou no séc. XVIII e continuou até aos nossos dias. Esta tradição procura conhecer os processos mentais que atuam na formação das perceções e com o conhecimento. Kant, Goethe, Schopenhauer – os seres humanos têm a capacidade de obter um conhecimento direto. Esse tipo de conhecimento fornece o conteúdo/a matéria do pensamento sobre a qual o pensamento racional irá operar. Por outro lado, tem a propriedade de se ligar de uma forma emocional ou “artística”/estética a determinados objetos, sugerindo que existe na mente uma apetência por procurar determinadas formas espiritualmente (não apenas materialmente) interessantes — o interesse perante um objeto belo é um interesse que não se confunde com o desejo ou com um interesse material e pragmático: a beleza é atraente por si, não porque sirva para alguma coisa ou para obter algum outro tipo de prazer..
Este tipo de experiência processa-se mediante os meios de que a mente dispõe para recolher, selecionar, organizar e interpretar a informação veiculada pelos sentidos. No séc. XX, os psicólogos da Gestalt (teoria da forma) identificaram um conjunto de leis que organizam a perceção. A perceção dos objetos obedece a um conjunto de leis. Estas leis determinam a forma como a mente perceciona os objetos, interpretando e dando significados aos dados que recebe através dos sentidos. Algumas são demonstradas através da análise de ilusões perceptivas, mostrando que a mente é capaz de seleccionar ou acrescentar informações aos dados que recebe dos sentidos.
Leis da perceção: agrupamento; continuidade; figura-fundo; fechamento; proximidade; semelhança.
Mecanismos da perceção: continuidade da forma; indicadores binoculares (focagem e convergência ocular) e monoculares (tamanho relativo, interposição, perspectiva linear) de profundidade e distância.
Questões de revisão:

(ii) Uma outra tradição liga a experiência estética à teoria da arte. Esta procura interpretar o significado da arte e dos valores que lhe podem ser associados. Os seus principais temas de estudo são “O que é a beleza (ou outro critério estético?” e “O que é uma obra de arte?”.


1.1.1.     Teorias sobre a arte e os valores estéticos/artísticos
Numa primeira fase apenas abordaremos questões que orientarão o nosso trabalho futuro:
·         Apreciamos esteticamente todos os objetos ou apenas alguns? (objetos naturais, ideias…)
·         Os critérios estéticos influenciam as nossas preferências? Porquê?
·         O que são valores estéticos? Quais destes valores podemos identificar?
·         Os valores estéticos evoluem ou são constantes?
·         Os valores e juízos estéticos têm base fisiológica ou cultural?
·         Utilizamos os mesmos valores estéticos, com o mesmo significado, em ralação aos diferentes tipos de objetos? – objetos naturais; pessoas; animais; utensílios; obras de arte;…
·         O que define uma obra de arte? O que permite hierarquizar a qualidade das obras de arte? Utilizamos apenas critérios estéticos nessa hierarquização?
·         As obras de arte têm de ser belas? Uma coisa bela é uma obra de arte?




1.2. A estética artística
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1.2.1.     Fundamentos inatos e culturais das experiências estéticas:
a)     Inatos: predisposição para reconhecer (e procurar) padrões, para apreciar cores e objetos brilhantes, para preferir determinado tipo de rostos e silhuetas (numa experiência mundial, praticamente a generalidade dos indivíduos colocou uma série de rostos na mesma sequência, do mais para o menos bonito. As diferenças culturais não foram relevantes).
Outros animais parecem possuir um sentido estético: pássaros pergoleiros; cimpanzés; melros.
b)    Adquiridos: culturalmente, somos educados para apreciar os objetos de determinadas maneiras, a destacar determinados valores, ou a aplicar/interpretar esses valores de diferentes maneiras: as escalas musicais não são iguais em todos os lados; a gordura corporal é valorizada de maneiras diferentes em diferentes culturas; o realismo na arte não é um valor comum. A educação e a cultura moldam o nosso sentido estético e associam os objetos e os diferentes tipos de experiências a determinados significados (ex.: beleza, dissonância, simetria…)


1.2.2.     A estética na arte

O que é uma obra de arte?
            Há boas e más obras de arte? Se sim, porquê?
            Que critérios definem uma obra de arte?
Que funções tem a arte?
            Entreter? Embelezar o mundo? Desafiar? Surpreender? Narrar? Difundir ideias? Criticar?...



As obras de arte são valorizadas (tb?) por:
·         Beleza
·         Inovação
·         Exclusividade
·         Dificuldade/domínio técnico/perfeição da execução
·         Emotividade
·         Expressividade
·        

Artes performativas – tal como no atletismo, a arte é feita ao vivo e contemplada de uma forma irrepetível (+/-, para o cinema e a música gravada). Um bom desempenho exige muita preparação e excelência técnica. Algumas obras chegam a ser produzidas para executantes excecionais.
Resultados
·         Transfiguração do espetador/arrebatamento (é tirado de si e transportado para a obra); esquecimento parcial de si
·         Endeusamento do artista/executante
·         Sentimento de comunhão no público ou deste com o artista.



Funçções da arte


Ficha de Avaliação, peso 1: Funções das obras de arte
As funções das obras de arte servem para defini-las como arte? As funções que podemos encontrar nas obras de arte são fundamentais para as definir como arte? …Acrescentam alguma coisa ao seu valor cognitivo, comercial, social…? Por outro lado, algumas obras de arte parecem não ter qualquer objectivo ou função e não deixam de ser consideradas como tal.
A atribuição de funções às obras de arte poderá não ser importante para a sua classificação como obras de arte ou para a compreensão do que é o próprio conceito de arte. Todavia, poderá ser importante para consciencializar os alunos que trabalham com a arte do valor pedagógico, comunicacional ou outro que esta pode ter.
Haverá uma única forma de definir a arte ou as obras de arte? Vários investigadores procuraram as características que definiriam as obras de arte como tal. Encontraram diferentes respostas, cada uma delas capaz de nos descrever uma parcela do universo da arte; mas nenhum conseguiu uma definição ou caracterização capaz de satisfazer todos os seus pares ou de abranger todas as formas de arte — as artes plásticas, as diferentes formas de literatura, a escrita da música, as récitas de artes performativas, as artes decorativas…
Existem as facções daqueles que pretendem dar regras ao trabalho artístico; e há aqueles que lutam contra a rigidez dessas regras e nos mostram novas formas de fazer arte, como aconteceu ao longo da história da música. Existem aqueles que entendem que a arte e o bom gosto devem procurar aqueilo que há de mais nobre na natureza e na história humanas; e há outros cujas obras retratam as pessoas banais, os feios bastidores do quotidiano ou a miséria material e espiritual dos desfavorecidos. Existem os que pugnam por uma arte imitativa (representacional); e há os que produzem arte abstrata ou os que valorizam a expressão da sua individualidade. Uns concentram a sua atenção nas artes plásticas; outros, na literatura ou nas artes performativas. Uns consideram que a obra de arte contém sempre algum elemento material; enquanto outros compõem mentalmente os seus poemas ou a sua música.
Para facilitar a primeira abordagem aos problemas “O que é a arte?” e “O que caracteriza uma obra de arte?” analisá-los-emos a partir das possíveis funções (ou objetivos) que, ao longo da história humana, foram sendo atribuídas à arte e às obras de arte. Claro está que imediatamente se levantam algumas outras questões: Será que as obras de arte têm funções/objetivos? Têm sempre as mesmas funções, ou algumas destas poderão estar ausentes em algumas situações? As diferentes funções são compatíveis? Poderão haver objetivos ou funções inconscientes?
F. Imitativa – Uma das primeiras concepções de arte é a da arte como imitação da realidade. Segundo esta concepção, uma obra de arte será capaz de retratar a realidade de uma forma que pode ser captada imediatamente, através dos sentidos. Esta é uma concepção que chegou à nossa tradição cultural provinda da literatura e das artes plásticas ocidentais, em que existia sempre (?) a representação da figura humana, da natureza, da história, etc. Todavia, não a encontramos na arte muçulmana, que proibia a representação pictórica da figura humana, encontrando uma alternativa nos motivos geométricos e na caligrafia.
Assim, esta concepção de arte parece incompleta, por ser sensível a uma série de dúvidas:
·         O que impede essa imitação ou reprodução da realidade de ser confundida com um documentário ou um relatório. O que faz a diferença entre uma obra de arte um documento informativo?
·         Algumas obras de arte não são imitações da realidade: a música instrumental, alguns poemas, pinturas abstratas, decorações geométricas…
·         A haver alguma imitação dacrealidade, essa imktação deve ser literal ou simbólica? Deve ser detalhada ou pode ser esquemática?...
Função comunicativa – A f. comunicativa da arte corresponde ao objectivo ou à possibilidade de uma obra de arte ou uma atuação (artes performativas) veicular um determinado conteúdo e/ou de gerar um laço de empatia ou intelectual entre o artista e o público. A obra de arte pode denotar explicita e literalmente um determinado significado, ou pode conotar um subtexto ou uma mensagem sublinear. Pode veicular conteúdos verbais e símbolos convencionais ou pode sugerir emoções, inquietações ou outros estados de espírito. No entanto, temos de perceber que há formas de arte não pretendem comunicar nada…
Dada a diversidade de formas da arte como comunicação, a função comunicativa desdobra-se por outras:
F. ideológica – Algumas obras foram concebidas como instrumentos de propaganda ao serviço de um determinado programa ideológico. Por exemplo, o conjunto de pinturas que retratam (denotativamente, i.e, explicitamente) o massacre dos Mártires de Marrocos (à direita, em baixo, à esquerda) foi utilizado como objecto de propaganda da fé cristã e de exortação à guerra santa no norte de África, aquando da expansão portuguesa.
http://pinturaportuguesa.blogs.sapo.pt/arquivo/martires_marrocos.jpgO subtexto ideológico pode ser conotado pelo objeto (como um significado que está para lá do sentido literal deste). Por exemplo, o conjunto arquitectónico da Praça do Comércio, em Lisboa, que incorpora os ideais de ordem, grandeza, poder real e unidade nacional ancorada na figura equestre do rei D. José.
F. expressiva – Uma função das obras de arte é exprimir as ideias (por ex., crenças científicas, ideologias políticas ou religiosas…) ou sentimentos do artista. Por exemplo, o ódio relativo a pessoas de uma determinada religião; ou a angústia e o desespero, o amor, etc.
F. lúdica — Algumas obras de arte foram produzidas apenas para gozo dos sentidos ou para entretenimento. Acima, a cena campestre pintada por Jean-Baptiste Fragonard é uma obra “comercial”, destinada a um público despreocupado e hedonista. Na mesma época cresceram as obras musicais ou literárias cujo objetivo era tão-só o divertimento do público.
F. decorativa — Outras obras parecem não ter mias do que uma função decorativa. Por isso existe a classificação de artes menores. Talvez possamos incluir o quadro de Fragonard neste conjunto. E a pintura abstrata de Mark Rothko — será uma obra decorativa?
F. referencial — Uma obra de arte é uma referência fixa, comum e mais ou menos pernamente, que tende a fixar-se como modelo ou referência comum de um período histórico, da identidade de um grupo de indivíduos ou de uma nação. Muitas das obras de arte que colocamos dentro desta categoria não foram concebidas com esta finalidade; mas outras foram-no: o hino “A portuguesa”; a basílica de S. Pedro, no Vaticano; a estátua da Liberdade, em Nova Iorque; a porta de Brandenburgo, em Berlim; etc. Quem produziu esta obras teve a clara intenção de utilizar a facilidade com que as obras de arte captam a atenção para lhes associar um conteúdo ideológico.
Outras obras assumem esta função referencial por se tornarem modelos estéticos ou objetos culturais que unem as gerações ao longo dos tempos. Talvez possamos colocar nesta categoria qualquer obra que esteja exposta num museu. No entanto, algumas obras destacam-se pela sua influência permanente. Um caso típico é o dos templos gregos, que influenciaram a arquitetura ocidental até hoje. Um outro exemplo são os dramas de Shakespeare, que continuam a ser tomadas como modelos para os estudantes da língua inglesa.
Tarefas (4x50):
1. Identifique uma ou mais características que definem as obras de arte. Justifique a sua resposta.
2. Existem obras de arte sem alguma função? Justifique a sua resposta.
3. Analise a imagem à sua direita (reprodução de uma obra contemporânea):
3.1. Atribua um significado geral aos seus elementos e ao conjunto da obra.
3.2. Identifique três funções, justificando a sua resposta.