quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Flexibilidade e precariedade do emprego

Flexibilidade e precariedade do emprego
Material AI, M6, Tema 6.2

Ilona Kovács *

Janus 2008 (http://janusonline.pt/2008/2008_4_2_11.html#2)


Há hoje um consenso generalizado em torno da crise do modelo de emprego até há pouco dominante. Mas, ao mesmo tempo, há uma grande controvérsia sobre a natureza das transformações actuais do emprego.
Na óptica neoliberal estamos a entrar na era pós-emprego caracterizada por um novo modelo de trabalho, o modelo empresarial: cada um gere o seu trabalho, a sua formação e toda a sua carreira (Bridges, 1994). Por sua vez, para o tecno-optimismo as tecnologias da informação e comunicação (TIC) levam à generalização do trabalho inteligente com crescentes oportunidades para todos.
As teorias sobre o fim do trabalho anunciam a perda da centralidade do trabalho remunerado na vida social e na vida dos indivíduos (Gorz, 1997; Méda, 1995).
Segundo as abordagens críticas, estamos perante uma evolução submetida à lógica do mercado e da globalização competitiva com elevados custos sociais, ambientais e humanos. Os críticos denunciam a tendência para a dualização e da acentuação das desigualdades sociais (Grupo de Lisboa, 1994; Castel, 1995; Castells, 1998).
Relativamente a este debate, defendo uma perspectiva segundo a qual há uma tendência para a crescente diversificação, heterogeneidade do trabalho e do emprego e, até para a sua invisibilidade nas teias das redes complexas dentro e entre as empresas. Por conseguinte, não estamos perante o fim do trabalho ou o fim do emprego, mas perante a difusão das modalidades flexíveis frequentemente precárias de trabalho e de emprego.
É frequente designar as formas  de emprego actualmente em grande difusão (trabalho temporário, trabalho com contrato de duração determinada, auto-emprego, trabalho a tempo parcial, trabalho ao domicílio, etc.) como atípicas face ao padrão normal do emprego. No entanto, estas formas passam a ser cada vez mais “típicas”, constituindo, hoje em dia, uma via de acesso normal para a integração no mercado de trabalho. (Kovács, 2002).
Para os defensores da perspectiva neoliberal, a flexibilidade é garantia da competitividade e, pelo contrário, os direitos ligados ao trabalho são seus obstáculos, provocando a deslocalização das empresas e a falta de investimentos estrangeiros. A perspectiva contrária associa a flexibilidade à precariedade. No entanto, flexibilidade não é sinónimo de precariedade. A precariedade do trabalho significa um trabalho sem interesse, mal pago; significa instabilidade, insegurança, forte vulnerabilidade económica, restrição dos direitos sociais, ameaça do desemprego e falta de acesso à formação e de perspectivas profissionais. É importante fazer distinção entre flexibilidade quantitativa e qualitativa. Nos meios empresariais e políticos existe uma forte convicção de que a flexibilidade do trabalho,  permitindo a variação do volume do emprego, dos salários, dos horários e do local de trabalho, é uma fonte importante da competitividade. Por conseguinte, qualquer enquadramento institucional do factor trabalho será, por natureza, um obstáculo à flexibilidade. Trata-se de um ajustamento quantitativo numa lógica de “via baixa” da melhoria da competitividade, ou seja, através de baixos custos salariais e mercado de trabalho desregulado, com recurso ao emprego inseguro e mal pago. Porém, a flexibilidade pode ser encarada numa perspectiva mais qualitativa que se promove pelas novas formas de organização do trabalho inseridas na lógica da “via alta” que implica altos níveis de produtividade, altos salários, alto nível de qualidade de vida e direitos sociais (Pyke e Segenberger, 1992; Castillo, 2005). Estas duas lógicas coexistem e complementam-se no seio das redes empresariais.
Os factores da difusão das formas flexíveis e precárias de emprego
Há um conjunto de factores em interacção que provocam a crise do emprego, nomeadamente a globalização da economia com a preponderância do capital financeiro, a difusão das TIC, o predomínio da política económica neoliberal, a divisão internacional do trabalho, a reestruturação das empresas, bem como a debilidade dos sindicatos e o desequilíbrio de forças no mercado de trabalho (Kovács, 2002). No contexto da globalização e das TIC, são as práticas inspiradas na ideologia dominante do livre mercado que levam ao desemprego, ao subemprego, à insegurança, à precariedade e à degradação do emprego (Beck, 2000). A difusão de empregos flexíveis insere-se no movimento de reestruturação dos processos produtivos e da flexibilização do mercado de trabalho e na procura constante do recurso humano mais barato a nível global.
Uma parte substancial das formas flexíveis de emprego é precária. A principal razão da difusão das formas precárias de emprego está na pressão da concorrência intensificada em mercados globais sobre as empresas. Numa economia globalizada, com predominância da lógica financeira e da rendibilidade a curto prazo, as empresas, pressionadas pela concorrência intensificada e pela instabilidade do mercado, procuram aumentar a flexibilidade e reduzir os custos.
A reestruturação das empresas permitida pelas TIC e estimulada pela competição global leva à difusão de uma nova organização da produção baseada na descentralização, segmentação e dispersão geográfica das actividades produtivas e sua integração em rede pelas TIC. A empresa em rede, de acordo com estratégias diferenciadas, combina diferentes tipos de organização do trabalho e de emprego com vista à obtenção tanto de flexibilidade qualitativa ou funcional como quantitativa. Surge uma diferenciação fundamental entre dois tipos de trabalhadores: os trabalhadores nucleares ligados à actividade central e os trabalhadores periféricos ou genéricos que podem ser contratados, despedidos, substituídos facilmente por outras pessoas de outras regiões.
A fragilização ou a remoção das instituições de regulação do mercado de trabalho e a maior liberdade de acção das empresas na utilização do trabalho também levam à proliferação de empregos precários. O poder sindical enfraquecido e a falta de mecanismos de defesa dos interesses do trabalho a nível transnacional facilitam o avanço da reestruturação económica de acordo com a lógica neoliberal.
A heterogeneidade do emprego flexível
As estatísticas indicam que em Portugal as formas flexíveis de emprego são muito difundidas. No que se refere à proporção do emprego com contrato de duração temporária, Portugal ocupa o 2.º lugar na UE 15 a seguir à Espanha, como se pode ver no gráfico “Evolução do emprego com contrato de duração temporária na UE 15 (1999-2005)”.
O auto-emprego em Portugal (inclui desde os profissionais altamente qualificados aos falsos autónomos dos “recibos verdes”) representa 24,1 % (2005) do total de empregos, proporção muito acima da média UE 15 (14,7 %), apresentando uma ligeira redução em relação a 1999, como indica o gráfico “Evolução do auto-emprego na UE 15 (1999-2005)”.
O trabalho a tempo parcial, com grande incidência nos jovens e nas mulheres, tem menos importância em Portugal (11,2%) do que na União Europeia (20,2%).
O emprego flexível incide, principalmente, sobre grupos etários mais jovens e sobre categorias sócioprofissionais de baixo estatuto e tende a abranger mais as mulheres do que os homens.
Os resultados de um estudo (Kovács, 2005) indicam que há uma grande distância entre os trabalhadores efectivos e uma parte substancial dos trabalhadores com empregos instáveis. Enquanto os primeiros se encontram numa situação de estabilidade profissional, reforçada pela promoção e formação e têm remunerações mais elevadas, os segundos acumulam uma série de desvantagens, tais como trabalho pouco interessante e pouco adequado ao nível de escolaridade/qualificação, autonomia reduzida, rendimento baixo e incerto, falta de oportunidades de formação e de perspectivas de carreira. No entanto, estas diferenças não significam que se trate de grupos homogéneos e com fronteiras rígidas. Trabalhadores com elevada antiguidade e vínculo estável podem ter uma posição frágil no mercado de trabalho devido ao seu baixo nível de escolaridade/qualificação. No que se refere aos trabalhadores em situação de emprego flexível, há heterogeneidade que podemos caracterizar com a seguinte tipologia:
Flexibilidade qualificante: escolha de empregos flexíveis por parte de indivíduos com níveis de escolaridade médio e elevado; trabalhos altamente qualificados, exigindo e estimulando a aprendizagem contínua; forte investimento na formação; capacidade de negociação para obter remunerações mais elevadas e melhores condições de trabalho; forte mobilidade de emprego com boas perspectivas profissionais.
Flexibilidade precarizante transitória: rotação entre empregos flexíveis transitórios por parte de jovens com níveis de educação elevados/médios cujo trabalho tende a ser pobre em conteúdo, limitando o uso das suas qualificações e a aprendizagem no trabalho; têm grande esperança e forte motivação para melhorar a sua situação profissional.
Flexibilidade precarizante a longo prazo: forte rotação, predominantemente involuntária, entre empregos precários por parte de indivíduos com nível de escolaridade médio e baixo; experiências de trabalho curtas, sucessivas e limitadas, impedindo a aprendizagem no trabalho; pouca ou nenhuma motivação para investir na formação; forte probabilidade de um percurso marcado pela precariedade e ameaça de desemprego.
Como há diversos tipos de trajectórias de flexibilidade, não podemos identificar a flexibilidade de emprego com a precariedade,  tão pouco aceitar a tese da crescente oportunidade para todos. Podemos encontrar trabalhadores com uma forte posição no mercado de trabalho (detentores de qualificações muito procuradas), apesar da instabilidade e carácter temporário das suas relações de emprego. As formas flexíveis de emprego são ambíguas. Para uns, pode tratar-se de uma situação de emprego transitória, de um trampolim para encontrar um emprego melhor; para outros, pode ser uma opção individual associada a um determinado estilo de vida; mas para outros ainda, trata-se de uma situação imposta  por falta de alternativas da qual é difícil sair e de uma armadilha que os amarra a um percurso profissional marcado pela precariedade.
Conclusões
Reconhecendo que o trabalho assalariado continua a determinar as condições e oportunidades de vida e a configuração da existência social da maior parte das pessoas, promover uma política orientada para o pleno emprego e para impedir a degradação e a precarização do emprego surge como um imperativo político. É de ressaltar que em Espanha os parceiros sociais assinaram (em Maio de 2006) um acordo cujo principal objectivo é promover a estabilidade do emprego.
A maior estabilidade do emprego reveste particular importância do ponto de vista do aumento da produtividade e da capacidade de inovação. Uma certa estabilidade do emprego está relacionada com ganhos de produtividade (Auer, P., Berg J., Coulibaly, I., 2004).
Uma política de emprego empenhada na maior difusão das formas flexíveis de emprego, na lógica do mercado de trabalho desregulado, tende a levar ao aumento do número daqueles que se tornam vítimas da lógica da “via baixa” da melhoria da competitividade. Não é por acaso que nos últimos tempos é tão discutida a questão da flexibilidade protegida ou “flexigurança”, com base na experiência dinamarquesa. Neste país, há menor protecção do emprego, uma maior mobilidade, mas, ao mesmo tempo, uma maior protecção social e investimento elevado em políticas de mercado de trabalho.
Para evitar que o trabalho se torne precário, é importante que haja regulação. Por exemplo, na Suécia as formas flexíveis de emprego são fortemente protegidas pela negociação colectiva e os sindicatos defendem os interesses dos trabalhadores flexíveis com uma taxa de sindicalização elevada (Pochic, S.; Paugham, S., Selz, M., 2003). Porém, para impedir a precarização do emprego não é suficiente uma regulação a nível nacional. Exige-se que haja mecanismos de implementação efectiva dos princípios do trabalho decente definidos pela OIT e mecanismos de defesa dos interesses ligados ao trabalho à escala global.

* Ilona Kovács, Professora do ISEG-UTL. Coordenadora do curso de Mestrado em Sociologia Económica e das Organizações. Investigadora do SOCIUS – Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações.



Tarefas:

1.        Identifique palavras e ideias que não conhece ou não compreende.
2.        Identifique os problemas apresentados pelo texto. Tente organizá-los.
3.        Liste as diferentes formas de emprego identificadas pela autora.
4.        Distinga precariedade de flexibilidade.
5.        A flexibilidade é vantajosa? Justifique.
6.        Sobre que grupos incide maioritariamente a flexibilidade laboral em Portugal?
7.        Como se caracteriza o emprego flexível em Portugal (tipos, regalias, salários, promoções…)?
8.        Que relações existem entre as novas formas de trabalho, or um lado, e a globalização da economia e as TIC, por outro?

Segundo Lote (1/5/2012)
1.       O que é o modelo empresarial do trabalho?
2.       Que modificações foram introduzidas (ou que oportunidades foram criadas) pela crescente introdução das TIC?
3.       O que argumentam os defensores da perspetiva neoliberal?
a.       O que é a relocalização/deslocalização de empresas?
b.      O que são flexibilidade e precaridade?
4.       O que é a precaridade laboral? Em que é que se traduz?
5.       O que é a flexibilidade laboral? Em que é que se traduz?
a.       O que é a flexibilidade quantitativa? Em que se traduz?
b.      O que é a flexibilidade qualitativa? Em que se traduz?
c.       Estas duas formas de flexibilidade geram precaridade?
6.       Que fatores são assinalados pela autora como estando na origem da crise no emprego?
7.       A que fatores está associada a difusão de empregos flexíveis?
8.       Que fatores são assinalados pela autora como estando na origem do emprego precário, nos dias de hoje?
9.       Por que razão a globalização degradou as condições de emprego? Emq eu setores se sentiu mais essa perda de qualidade do emprego?
10.   De que forma a difusão das TIC criou novas desigualdades nas condições d etrabalho?
11.   Em Portugal, de acordo com os gráficos, qual er a importância de cada uma das formas de emprego referidas pela autora?
12.   Que diferenças foram notadas pela autora entre os contratados a termo certo e os efetivos?
13.   Que tipos de emprego flexível foram assinalados pela autora?
14.   Que vantagens exitem no emprego estável?
15.   O que é a flexisegurança?
16.   Que fator é identificado pela autora como meio para reduzir a precaridade do emprego?
Quais são os princípios do trabalho  defenidos pela OIT?

O trabalho na Sociedade da Informação

Sociedade da informação
Alvin Toffler – A terceira vaga, Lx., Livros do Brasil, 1984
Thomas Friedman – Quente, pleno e cheio, Lx., Atual, 2008

Caracterização: A sociedade da informação é uma sociedade cuja economia, modo de vida e cultura são dependentes da produção, difusão e circulação da informação. Os estados ou as empresas reforçam a sua participação nesta sociedade da informação quando financiam a investigação e o registo de patentes ou quando montam ou aperfeiçoam sistemas de comunicação de massas (TV, rádio, imprensa), quando montam redes de comunicações eletrónicas (linhas telefónicas ou de fibra ótica; satélites) ou quando promovem a utilização criteriosa da informática nas escolas.
As oportunidades criadas pela espiral de inovação permitem o desenvolvimento de novas empresas, com capacidade criativa, adaptadas aos novos modelos organizacionais da sociedade, oferecendo mais emprego qualificado e sustentável no longo prazo.
A indústria existente, apoiada por esse movimento de inovação, pode ambicionar atingir níveis mais elevados de competitividade, resistindo à pressão externa, modernizando-se, obtendo ganhos de produtividade que a adeqúem ao novo contexto internacional, proporcionando-lhe novas oportunidades de sucesso.
O Estado estará mais aberto e transparente aos cidadãos e às empresas, em resultado das novas tecnologias da informação, que permitem acesso electrónico a arquivos e ficheiros públicos, reduzindo a distância entre a administração pública e aqueles que requerem os seus serviços.
José Dias Coelho, A sociedade da informação e do conhecimento: um desafio epistemológico nos sistemas de informação, Lx. UNL, 2000
Consequências e potencialidades: O uso da informação como fator-chave da sociedade reflete-se na economia e no trabalho, no lazer, nas relações entre pessoas, na política e na cultura. É uma sociedade
·         cuja economia se baseia no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, como fatores da competitividade dos países ou das empresas: a sua inclusão num mercado global, em que os produtos e capitais podem circular facilmente de um país para outro, faz com que a economia de cada país esteja em concorrência com as de todos os outros. Assim, quando dois ou mais países são capazes de oferecer o mesmo produto, aquilo que pode levar um deles a destacar-se é a inovação ao nível dos materiais, do design ou do desenvolvimento de sistemas de produção mais eficientes, que permitam baixar os custos de produção. Fritz Machlup determinou em 1962 um aumento do número de patentes registadas é seguido por um crescimento económico. Peter Drucker, prémio Nobel da economia, notou em 1981 que a economia e a sociedade estão a ser transformadas pelo acesso à informação e a formar a chamada sociedade da informação.
·         que permite que os indivíduos utilizem o conhecimento que obtêm das escolas e dos meios de comunicação social para aprofundar a sua formação como pessoas e cidadãos: é importante conhecer a realidade do país ou da região em que nos encontramos e saber quais são as grandes questões morais e sociais do nosso tempo, para que possamos concorrer a cargos políticos ou interpelar os nossos representantes.
·         que evoluiu, com a Internet e o uso dos computadores, para permitir o acesso rápido à informação.
·         que permite que os indivíduos comuns possam criar e divulgar informação: algumas destas contribuições são muito pobres ou erradas; outras são de grande qualidade e valor.
·         Que nos permite ter acesso a informações de todo o mundo, incluindo bibliotecas on-line. Por outro lado, esse acesso a muitas culturas é abafado pela homogeneização dos padrões de comportamento: cada vez mais, as pessoas de diferentes partes do mundo se vestem da mesma maneira, reproduzem os mesmos gestos, comem os mesmos alimentos… havendo um risco da perda da identidade cultural e das tradições de cada povo em função de modelos ligados ao consumo de grandes marcas.
·         que exige dos cidadãos uma preparação cuidada: é preciso saber tirar partido da tecnologia e da informação, e isso exige uma boa formação de competências e uma boa cultura geral.

1.     Que desafios e oportunidades são colocados/dados pela sociedade da informação às empresas?
2.     A sociedade da informação melhora a qualidade da democracia? Justifica.
3.     Por que razão os estados sentem necessidade de apostar na sociedade da informação?

Riscos: A produção, difusão e circulação da informação já existiam em épocas anteriores, mas a quantidade a que os cidadãos comuns tinha acesso era pequena e mantinha-se estável durante a sua vida adulta. A maior parte das pessoas não necessitava de muita informação para desempenhar o seu trabalho e viver a sua vida. Se excetuarmos as elites, aqueles que possuíam mais conhecimentos eram os mestres artífices, como pedreiros, marceneiros, etc, que conheciam profundamente os segredos dos seus ofícios. (A informação que estava na posse das elites da sociedade era maior, mas igualmente estável.)
Atualmente a informação evolui muito rapidamente e é necessário um permanente esforço de atualização por parte dos indivíduos. Os melhores empregos dentro da sociedade são altamente especializados, exigindo grandes quantidades de conhecimento. Dada a constante evolução científica e tecnológica, os indivíduos que pretendam manter um desses empregos necessitam que a sua formação inclua o desenvolvimento da capacidade de fazer auto-aprendizagem e a formação de atitudes de auto-motivação e auto-disciplina.
Esta necessidade de especialização não é exigida a todos. Curiosamente, ao mesmo tempo que se forma uma elite altamente especializada, crescem os postos de trabalho que exigem muito pouca especialização, podendo aceitar qualquer indivíduo, mas que, em contrapartida, são precários e mal remunerados. Estes indivíduos que formam a classe dos trabalhadores não qualificados utilizam as novas tecnologias sobretudo como consumidores, que a utilização para ocuparem os seus tempos livres ou como símbolo de estatuto social, não como utilizadores competentes da tecnologia ou da informação que ela permite obter. Assim, em quase todos os lares existe agora um computador, mas que serve para pouco mais que para ver o Youtube e trocar cumprimentos no Facebook e não tanto como instrumento de aprendizagem ou de produção de conhecimento. A televisão é mais procurada como meio de entretenimento do que como meio de informação. Os jornais continuam a ser pouco lidos e as notícias que publicam são, em grande parte, as mesmas porque lhes são fornecidas pelas mesmas agências de informação.
A generalização da utilização passiva da Internet e do computador tem vindo a alterar o funcionamento e a organização da inteligência dos jovens. Os jovens conseguem aceder à informação a uma velocidade incrível; todavia, continuam a não ser capazes de selecionar as fontes de informação e lêem-nas de forma superficial. Assim, são capazes de recolher rapidamente uma grande quantidade de informação, mas não podem garantir a qualidade do seu conteúdo e muitas vezes não compreendem o seu significado.
Desta forma, existe o risco de o verdadeiro conhecimento (aquele que implica o desenvolvimento de capacidade de interpretação, memória a longo prazo, capacidade de síntese e criatividade) passar a estar na posse de um número cada mais reduzido de indivíduos. Isso prejudicará a qualidade da democracia e as relações sociais.
4.     Antes da sociedade da informação também havia produção, circulação e difusão da informação? Justifique.
5.     Que requisitos é preciso ter para ser um trabalhador/membro pleno da sociedade da informação? Justifique.
6.     A sociedade da informação pode aprofundar as desigualdades sociais. Explique por quê.

«Web 2.0 é um termo que designa uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito a "Web como plataforma" (…). [Refere-se] a uma mudança na forma como ela é encarada por utilizadores e desenvolvedores (…)». Essa mudança caracteriza-se pela troca do conceito de página ou portal pelo de plataforma, ou seja, um local on-line através do qual se acede a um serviço (por vezes pago) e cujos conteúdos podem ser comentados ou produzidos pelo utilizador. Alguns exemplos disso são as plataformas que permitem a construção de blogues, o Issuu, o slideshare ou a Wikipedia.
Permitiu que mais pessoas se assumissem como criadores de informação e disponibilizassem os seus materiais a outros utilizadores – um pouco como moeda de troca, por vezes – e que possam funcionar como comunidades que se auto-gerem (como o Wikipedia ou como alguns jogos on-line)
7.     Como se pode fazer um uso responsável das plataformas da Web 2.0?
8.     Como se pode realizar trabalho escolar com a Internet minimizando o risco de plágio/cópia?
9.     Como se evitam pelágios? — técnicas básicas; deteção; programas (viper 1.5.00; Approbbo; etc.)


Sociedade da Informação – 2

A sociedade da Informação antes dos computadores
O seu principal instrumento é a circulação em massa de informação. Os meios de comunicação de massa caracterizam-se por chegarem em simultâneo a, virtualmente, toda a população, veicularem informação actual e serem facilmente acedidos. A comunicação em massa tem as suas raízes no século XV, com a invenção da imprensa de carateres móveis e a impressão de livros em série; mas só podemos falar verdadeiramente de uma circulação em massa da informação com o surgimento dos jornais. Estes produzem e difundem informação de interesse geral, destinada a qualquer público. Essa é informação produzida em cima do acontecimento e tem como efeito a criação de debates e a formação da opinião pública. Por isso, os jornais têm valor informativo, mas também político e social.
No início do século XX, a rádio veio em parte desempenhar esse papel da imprensa escrita, servindo como meio de informação. Tinha a vantagem de ser acessível aos analfabetos e de ser um meio multimedia, na medida em que combinava a informação com a música ou com o teatro.
A partir de meados do século XX, a televisão veio a desempenhar os mesmos papeis da rádio. Neste momento, havendo uma grande oferta de canais específicos acessível a grande parte da população, a capacidade informativa e pedagógica da televisão reduziu-se — simplesmente porque as pessoas escolhem o que querem ver, não se limitando a uma programação planeada.
Os computadores permitiram o aprofundamento da sociedade da informação devido 1) à sua capacidade de processar grandes quantidades de dados em pouco tempo e 2) à facilitação da produção e edição de textos datilografados. A Internet surgiu como um canal de transmissão para a informação produzida e acabou por emergir, adicionalmente, como uma imensa biblioteca.


A Web 2.0 e a sociedade da informação
A Internet foi inicialmente criada por investigadores científicos do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear) para facilitar a comunicação e a troca de conhecimentos entre universidades e centros de investigação. Procurava possibilitar as funções básicas que lhe conhecemos: envio de documentos, publicação on-line e comunicações em tempo real. Em poucos anos, passou de uma ferramenta utilizada por uma classe específica e passou a estar aberta a utilização do público em geral.
O aperfeiçoamento dos equipamentos informáticos e dos programas que possibilitam a comunicação entre computadores foi tão grande que a Internet começou a rivalizar (ou a ultrapassar) os meios de comunicação de massa (jornais, rádio, TV). A massificação da utilização da Internet criou alguns problemas novos, como a usurpação de direitos de autor e a modificação da qualidade do trabalho realizado nas escolas; mas também agilizou o trabalho de muitos profissionais e facilitou o trabalho doméstico em algumas profissões. Permite tb que o trabalho e o comércio sejam mais globais que nunca, pela facilitação e aceleração das comunicações.
Dentro do espírito da criação da Internet, as plataformas da Web 2.0 permitiram que mais pessoas se assumissem como criadores de informação ou como colaboradores na sua produção e divulgação. De entre estas, destacam-se as redes sociais, que vão muito além do Facebook e outras plataformas do mesmo tipo. Algumas delas funcionam como bibliotecas criadas pelos utilizadores, os quais disponiblizam os seus conhecimentos e materiais a outros utilizadores. Esse é o caso de portais ou plataformas como Issuu, Slideshare, Musicaviva, etc.

Algumas desvantagens: Claro está que a qualidade do material publicado não está garantida, por muito boa vontade que tenham os seus produtores. Essa é uma grande desvantagem.
Apesar dessa desvantagem, a verdade é que, neste momento, o principal e primeiro meio de informação utilizado pela generalidade das pessoas é o motor de busca; e que a primeira fonte de informação procurada, apesar da sua fragilidade, é a Wikipedia. Não é um meio completamente fiável, mas é aquele que nos fornece os primeiros dados sobre um dado assunto. A facilidade de acesso à informação cria, por vezes, a ilusão de conhecimento: muitos estudantes e outras pessoas utilizam a informação sem a avaliarem ou sem a interpretarem. Daqui decorre muitas vezes um problema ético, a saber, o plágio (cópia sem citação do autor), o qual pode ser detetado com alguma facilidade utilizando programas próprios, de freeware, ou simplesmente utilizando o motor de busca. O plágio existia antes da Internet mas, como outras coisas, foi facilitado por ela. Os professores terão de adaptar as suas técnicas de avaliação a esta nova realidade.
No final da avaliação do impacto da Internet na nossa sociedade, o que podemos observar é que esta está a tornar-se cada vez mais desigual, dividida entre um grupo de indivíduos altamente esclarecidos e cultos, que dominam a informação (porque a produzem, avaliam e utilizam de forma criativa e produtiva), e um outro grupo, formado por indivíduos que são analfabetos funcionais, ou seja, que não compreendem e não sabem interpretar, relacionar ou utilizar a informação. Alguns destes são indivíduos que brincam com os computadores todos os dias, mas que muitas vezes não conhecem minimamente as suas potencialidades e que não o utilizam como instrumento de trabalho ou de estudo.
No caso das redes sociais recreativas, como o Facebook, etc., as desvantagens são sobretudo duas: uma utilização pouco conscienciosa por parte do público e a possibilidade de as empresas que as gerem utilizarem os dados dos utilizadores para fins comerciais, chegando ao ponto de ser recusada a destruição definitiva desses dados, ainda que o utilizador a peça expressamente.


Objetivos das plataformas da Web 2.0:: Podemos encontrar diferentes tipos de objetivos por detrás da utilização das plataformas interativas e de serviços que classificamos como Web 2.0:
1.     Obetivos comerciais – as plataformas são disponibilizadas gratuitamente aos utilizadores, mas são financiados por patrocinadores que os utilizam para fazer publicidade aos seus produtos ou serviços. Em alguns casos, como no da empresa Google, os dados são utilizados para se fazerem estudos sobre a população – sobre coisas tão práticas como a propagação do vírus da gripe ou como estudos que utilizam dados demográficos (idade, localização ou sexo do utilizador), cruzados com os termos de pesquisa utilizados, para definir interesses, hábitos de consumo, etc., que podem ser utilizados quando se faz o estudo ou o design de um determinado produto comercial.

2.     Objetivos políticos: esses dados podem ser utilizados pelos estados e agências de informação para recolher dados sobre os cidadãos. Não há certezas sobre a existência deste tipo de utilização, mas ela é possível. É de ter em conta que no início da década passada foi montado um sistema de controlo de comunicações que, alegando a necessidade de combater o terrorismo, controlou as comunicações dos cidadãos particulares a nível global.

3.     Objetivos cívicos: permitir aos cidadãos um maior e melhor acesso à informação para fomentar a troca de conhecimentos entre os indivíduos e facilitar o desenvolvimento.



Responda numa folha à parte e entregue no final da aula.
1.     O que é a sociedade da informação?
2.     O que são meios de informação em massa?
3.     Explique a importância da sociedade da informação para a economia.
4.     Quais eram os objetivos de quem criou a Internet?
5.     O que caracteriza a Web 2.0?
6.     De que formas a Internet modificou a sociedade da informação?
7.     Identifique as vantagens da Web 2.0.

8.     Identifique as desvantagens da Web 2.0.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O que estuda a estética (incompleto)


1. O que estuda a estética? – Na sua origem, o termo “estética” deriva do grego antigo, com o significado de sensação ou perceção. Foi recuperado pelos filósofos da mente do século XVIII para a) designar um tipo de experiência e/ou de conhecimento baseado nos sentidos e que não dependeria [diretamente] do pensamento racional. Posteriormente, a estética passou a estar associada à b) teoria da arte, aos valores artísticos e ao estudo de conceitos ou experiências acerca da beleza e conceitos relacionados.
https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQDSfhK7KKu59Q6iwsMfOTG1BQdXVv_r97FYWyGoXuRuBcXPvBx
2. A universalidade da estética
A estética parece ser um tipo de experiência universal em dois sentidos: manifesta-se em todos os indivíduos e tende a haver algum elemento estético em quase todos os objectos produzidos pelas pessoas. Além disso, é frequente haver objectos que são produzidos apenas para serem objectos estéticos, como canções, poemas ou adornos pessoais. A preferência que manifestamos por objetos bonitos, ou com algum elemento estético, parece ser universal. As manifestações ou produções estéticas encontram-se em quase tudo o que fazemos e nos objetos de que nos rodeamos.
O que procuramos nesses elementos estéticos dos objetos? Prazer sensorial? Prazer espiritual? Expressão de sentimentos e estados de espírito? Simbolização de ideias e crenças? Relatar experiências? Representar a forma como vemos o mundo? Satisfazer um gosto instintivo por padrões, cores bonitas e formas elegantes? Transes e experiências religiosas?...
Alguns dos primeiros investigadores da experiência estética definiram-na como uma experiência de contacto direto com o objeto em que (i) o sujeito experimenta uma espécie de interesse desinteressado (não material) pelo objecto e em que (ii) os sentidos são libertados dos esquemas rígidos da razão para poderem brincar livremente com os dados que recebem do objecto (jogo livre dos sentidos).
A universalidade deste tipo de interesse e preferência é tal que os manifestamos relativamente a objetos que, à primeira vista, não teriam valor estético, como um parafuso. Verificamo-la facilmente em objetos como talheres e copos, mosaicos e canalizações, maçãs e bolachas, carros ou casas. O elemento estético acrescentado ao um objeto valoriza-o como objeto pessoal ou como produto comercial, associa-o a ideologias, a crenças, a uma identidade cultural ou à religião (ajudando a fixá-las e reproduzi-las). A preferência por objetos com elementos estéticos é tão importante que ter objetos com qualidade estética parece uma necessidade ou uma tendência da espécie humana.

3. O que é uma experiência estética? – O conceito de experiência estética abrange, portanto, duas grandes tradições, com abordagens diferentes:
(i) Uma tradição ligada ao estudo da mente e da perceção, que começou no séc. XVIII e continuou até aos nossos dias. Esta tradição procura conhecer os processos mentais que atuam na formação das perceções e com o conhecimento. Kant, Goethe, Schopenhauer – os seres humanos têm a capacidade de obter um conhecimento direto. Esse tipo de conhecimento fornece o conteúdo/a matéria do pensamento sobre a qual o pensamento racional irá operar. Por outro lado, tem a propriedade de se ligar de uma forma emocional ou “artística”/estética a determinados objetos, sugerindo que existe na mente uma apetência por procurar determinadas formas espiritualmente (não apenas materialmente) interessantes — o interesse perante um objeto belo é um interesse que não se confunde com o desejo ou com um interesse material e pragmático: a beleza é atraente por si, não porque sirva para alguma coisa ou para obter algum outro tipo de prazer..
Este tipo de experiência processa-se mediante os meios de que a mente dispõe para recolher, selecionar, organizar e interpretar a informação veiculada pelos sentidos. No séc. XX, os psicólogos da Gestalt (teoria da forma) identificaram um conjunto de leis que organizam a perceção. A perceção dos objetos obedece a um conjunto de leis. Estas leis determinam a forma como a mente perceciona os objetos, interpretando e dando significados aos dados que recebe através dos sentidos. Algumas são demonstradas através da análise de ilusões perceptivas, mostrando que a mente é capaz de seleccionar ou acrescentar informações aos dados que recebe dos sentidos.
Leis da perceção: agrupamento; continuidade; figura-fundo; fechamento; proximidade; semelhança.
Mecanismos da perceção: continuidade da forma; indicadores binoculares (focagem e convergência ocular) e monoculares (tamanho relativo, interposição, perspectiva linear) de profundidade e distância.
Questões de revisão:

(ii) Uma outra tradição liga a experiência estética à teoria da arte. Esta procura interpretar o significado da arte e dos valores que lhe podem ser associados. Os seus principais temas de estudo são “O que é a beleza (ou outro critério estético?” e “O que é uma obra de arte?”.


1.1.1.     Teorias sobre a arte e os valores estéticos/artísticos
Numa primeira fase apenas abordaremos questões que orientarão o nosso trabalho futuro:
·         Apreciamos esteticamente todos os objetos ou apenas alguns? (objetos naturais, ideias…)
·         Os critérios estéticos influenciam as nossas preferências? Porquê?
·         O que são valores estéticos? Quais destes valores podemos identificar?
·         Os valores estéticos evoluem ou são constantes?
·         Os valores e juízos estéticos têm base fisiológica ou cultural?
·         Utilizamos os mesmos valores estéticos, com o mesmo significado, em ralação aos diferentes tipos de objetos? – objetos naturais; pessoas; animais; utensílios; obras de arte;…
·         O que define uma obra de arte? O que permite hierarquizar a qualidade das obras de arte? Utilizamos apenas critérios estéticos nessa hierarquização?
·         As obras de arte têm de ser belas? Uma coisa bela é uma obra de arte?




1.2. A estética artística
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1.2.1.     Fundamentos inatos e culturais das experiências estéticas:
a)     Inatos: predisposição para reconhecer (e procurar) padrões, para apreciar cores e objetos brilhantes, para preferir determinado tipo de rostos e silhuetas (numa experiência mundial, praticamente a generalidade dos indivíduos colocou uma série de rostos na mesma sequência, do mais para o menos bonito. As diferenças culturais não foram relevantes).
Outros animais parecem possuir um sentido estético: pássaros pergoleiros; cimpanzés; melros.
b)    Adquiridos: culturalmente, somos educados para apreciar os objetos de determinadas maneiras, a destacar determinados valores, ou a aplicar/interpretar esses valores de diferentes maneiras: as escalas musicais não são iguais em todos os lados; a gordura corporal é valorizada de maneiras diferentes em diferentes culturas; o realismo na arte não é um valor comum. A educação e a cultura moldam o nosso sentido estético e associam os objetos e os diferentes tipos de experiências a determinados significados (ex.: beleza, dissonância, simetria…)


1.2.2.     A estética na arte

O que é uma obra de arte?
            Há boas e más obras de arte? Se sim, porquê?
            Que critérios definem uma obra de arte?
Que funções tem a arte?
            Entreter? Embelezar o mundo? Desafiar? Surpreender? Narrar? Difundir ideias? Criticar?...



As obras de arte são valorizadas (tb?) por:
·         Beleza
·         Inovação
·         Exclusividade
·         Dificuldade/domínio técnico/perfeição da execução
·         Emotividade
·         Expressividade
·        

Artes performativas – tal como no atletismo, a arte é feita ao vivo e contemplada de uma forma irrepetível (+/-, para o cinema e a música gravada). Um bom desempenho exige muita preparação e excelência técnica. Algumas obras chegam a ser produzidas para executantes excecionais.
Resultados
·         Transfiguração do espetador/arrebatamento (é tirado de si e transportado para a obra); esquecimento parcial de si
·         Endeusamento do artista/executante
·         Sentimento de comunhão no público ou deste com o artista.